Fábio Caetano Gomes Mota, conhecido por Fábio Mota, 32 anos de idade, iniciou a sua carreira em 2002 no Karting, modalidade que ainda pratica.

Com um largo curriculum, Fábio Mota é dos pilotos a competir no Campeonato Português de Karting, estando a lutar pelo top 3 nacional da classe X30 Super Shifter – Master

Através de uma conversa informal, procuramos perceber qual a razão de Fábio Mota se dedicar à prática do Karting.

Karting Global – Fábio, obrigado pela tua disponibilidade para falarmos um pouco.  Qual a razão de voltares a praticar karting, tendo aos 18 anos saltado para os carros, com experiência em Fórmula Júnior Renault 2.0, Carros Turismo, Sport-Protótipos, GTs, e recentemente vencedor do Open/TCR Ibérico em Vila Real?

Fábio Mota – Pois bem, um dos grandes motivos que me faz continuar a praticar karting é em primeiro lugar manter alguma disciplina física, principalmente a categoria de caixa de velocidades que é das mais espetaculares e das mais exigentes. Não é por acaso que todos os pilotos Fórmula 1, no inverno, treinam com este tipo de kart. Eu defendo que nenhum dos miúdos que andam na X30 Júnior e X30 deviam sair da modalidade sem passar pela categoria de caixa, porque aprender no karting a meter mudanças é uma grande escola para o automobilismo.

Eu penso que neste momento não há essa filosofia no Paddock, tanto a nível internacional como a nível nacional. Espero que a breve trecho isto mude porque realmente um piloto que faça apenas uma temporada com este tipo de kart, entra num Fórmula, num GT3 ou num GT4 e sabe onde deve reduzir, onde as deve passar, facilitando muito a vida aos engenheiros de pista e toda a equipa a trabalhar com piloto.

O facto de eu estar aqui para disputar mais uma prova do nacional X30 Super Shifter – Master é acima de tudo um grande gozo. Nos automóveis, não temos o tempo de pista necessário durante o fim de semana. No Karting a relação custo-benefício é realmente muito atrativa, pois o tempo de pista é muito grande, visto que fazemos 6 a 7 sessões de treinos sexta-feira, sábado de manhã temos mais 3 treinos livres seguidos de cronometrados e mais 3 corridas.

Podem dizer que o karting está a ficar caro, mas eu penso que se tomarmos em consideração vários fatores, nomeadamente a relação preço benefício, não é assim tão caro. Tendo em conta o tempo que passamos em pista, o gozo que tudo isto nos proporciona com a performance que conseguimos com este tipo de pneus, com este tipo de assistência e guiando no limite…

Comparativamente com o troféu KIA PICANTO, em que os pilotos no fim-de-semana, com um custo de 5000€, têm 2 sessões de treinos livres de 15 minutos, 2 sessões de qualificação de 10 minutos e 2 corridas de 20 minutos e vão embora para casa. É questionável se realmente é assim tão barato como se diz.

KG – Com tudo isto, és de opinião que os pilotos não devem ter pressa de sair do karting?

FM – Sem dúvida. Se eu tivesse de recomeçar tudo de novo e saliento que entrei tarde para Karting, com 13 anos, por isso falhei a escola da Iniciação da Cadete e Juvenil. Entrei logo direto para uma categoria que na altura era muito difícil, a Inter A, e que obrigava a carburar. Entrei no Karting aos 13 anos e passado 5 anos aos 18 saí para os automóveis, foi um erro. Vim de uma geração em que todas as referências internacionais apontavam para que um piloto aos 20 anos já teria que estar numa categoria muito próxima da Fórmula 1.

Hoje em dia, isso já está um bocadinho desvalorizado. Se tomarmos como exemplo o Max Verstappen, que entrou na F1 com 18 mas, só aos 21 é que está com maturidade suficiente para ganhar corridas. Os chefes de equipa começam a olhar para estes casos e a questionar se se justifica gastar 25 milhões de euros num ano com um piloto de 19 anos, mesmo sendo ele rápido, mas não tendo maturidade para finalizar e capitalizar os pontos nas corridas.

Sinceramente aconselho estes miúdos a não terem pressa. Aguentem até aos 16/17 anos no karting e aí sim façam uma fórmula 4, de seguida uma fórmula 3.  Se não tiverem dinheiro para evoluir mais, tentem logo GTs, que neste momento há muito mercado para se profissionalizar nesta classe. Temos o exemplo do Henrique Chaves, que andou alguns anos nos fórmula, e agora, no primeiro ano que faz GTs, está a liderar um campeonato. Possivelmente para o ano não vão faltar construtores a propor-lhe um lugar como piloto oficial.

KG – O que é que tu tens a dizer sobre o karting? Como é estar inserido numa equipa como a Motocane?

FM – Aqui, na Motocane,  a grande especialidade é a categoria de caixa, não que a equipa não tenha competência para trabalhar nas outras classes, mas de há uns anos para cá especializaram-se nesta classe,  nas afinações, nas carburações, nos rapport (relação),  em tudo o que se refere a karts com caixa.

É notória a experiência deste team, não sendo por acaso que Motocane prepara muitos motores para clientes particulares nesta categoria.

O estar inserido numa equipa que tem tanta experiência e que tem todos os pilotos na mesma categoria tem altos e baixos. Nós partilhamos muita informação, conseguimos definir Setup (configurações) mais rápido do que as outras equipas visto que somos logo cinco pilotos na mesma categoria.

Em contrapartida, não é fácil gerir os momentos quentes das corridas, pois estamos todos em pista ao mesmo tempo e por vezes há disputas de posição.

Se há meia-hora atrás estávamos a almoçar todos em amena cavaqueira e boa disposição, passado um bocado as coisas ficam diferentes e bem mais quentes, tem que haver uma grande maturidade para saber gerir essas relações.  Tirando isso, é uma família. Depois do horário das corridas temos um ambiente muito saudável, os pilotos que vêm para cá aprendem não só com os mecânicos, mas também com os pilotos que já aqui estão.

Eu gostava muito de ver tanto a Motocane com outras estruturas relacionadas com o karting a terem mais pilotos nesta categoria porque acho muito importante para o automobilismo.

KG – Queres deixar alguma mensagem a pilotos consagrados, teus colegas nos carros sobre o karting!

FM – Sim, sem dúvida.

Nós temos pilotos muito bons, por exemplo o Álvaro Parente, Filipe Albuquerque o Miguel Ramos já nos GTs, o Henrique Chaves (e sei que ele treina bastante com kart de caixa), o Félix da Costa, acho que todos eles podiam fazer um bocadinho mais pelo karting Nacional, nomeadamente na classe Shifter (Kart de caixa). Todos estes exemplos que eu dei na pré-época deveriam apostar nesta classe, deveriam vir às nossas pistas, nós temos um clima muito agradável durante o inverno.

Deviam aproveitar os nossos kartódromos e treinar, sendo um exemplo para os mais novos e desta forma apoiando as estruturas existentes.

Convidado: Fábio Mota

Imagens: ©VVL SportImage (José Lourenço)