Dom. Set 20th, 2020

Tudo sobre o Karting de competição

Entrevista: No Reino dos Leão

5 min read

 

Para quem ‘passeia’ normalmente pelo paddock do campeonato nacional de karting (CPK, Open, Taça), é natural que num ambiente de alta competição se vejam algumas famílias que apostam significativamente numa presença assídua nas provas do calendário. Já há tempos atrás havíamos apresentado uma dessas famílias e agora chega a oportunidade de vos trazermos outro ‘clã’, que vê no karting uma plataforma para uma aposta no automobilismo.

Tivemos recentemente a oportunidade de entrevistar o ‘cérebro’ da aposta da família Leão no karting nacional, António Basílio Leão. A conversa resultou, na nossa opinião extremamente interessante, não só exibindo as preocupações de um pai em proporcionar aos filhos a concretização de experiências no desporto motorizado, como também perceber um pouco das opções que se apresentam a quem quer competir no karting e ainda das limitações impostas por um sistema fiscal nada potenciado para impulsionar carreiras no desporto motorizado, que acaba por dificultar a vida de quem luta por apoios e pela oportunidade de captar investimento em jovens pilotos. Venha pois daí ao ‘reino’ dos Leão.

Karting Global: Como se proporcionaram as coisas para que os teus dois filhos estejam a competir no karting, foi por vontade deles, ou tudo se desenvolveu de uma outra forma?

António Basílio Leão: Tudo começou no Cabo do Mundo com os karts de aluguer, mas depois as coisas foram evoluindo e ‘fomos-nos desgraçando’ completamente nos karts. Eu nos meus tempos andei nas motos, durante muitos anos e antes que eles (filhos) entrassem nas motos, aproveitei os karts para que se dedicassem a um desporto de que gostavam.

António Basílio Leão

KG: Como se consegue gerir toda esta forma de vida, financeira e logisticamente, até mesmo a nível familiar, estando eles ainda em idade escolar?

ABL: Claro que não é fácil, até porque ainda há um terceiro filho, que não está nos karts, tem outras atividades e nem sempre o consigo acompanhar da melhor maneira. Temos que treinar, vir para as provas, isso ocupa-nos algum tempo. Financeiramente, com algumas dificuldades, são dois filhos a correr, temos um budget pré-definido no início do ano e que tem que ser cumprido religiosamente. Está longe de ser um dos melhores budgets do ‘paddock’ do campeonato nacional. Vamos gerindo com alguma dificuldade mas, para aquilo que nós gastamos nos karts, para a quantidade de competição que os dois têm, as coisas até têm corrido bem.

KG: Como vês o futuro deles no automobilismo? Vais ver até onde a paixão os leva ou existe já um objetivo de eles passarem dos karts para os automóveis?

ABL: O objetivo é passarem dos karts para os automóveis. Aí será necessário arranjar apoios para dar ‘esse salto’. Se os conseguirmos daremos esse passo, caso contrário continuaremos nos karts, pois eles irão competindo enquanto pudermos e existir vontade. Mas o objetivo prioritário é passar dos karts para os automóveis.

António Basílio Leão ‘cercado’ pelos dois filhos, Manuel (esquerda) e Luis (direita).

KG: Como vês neste momento o karting em Portugal no capítulo desportivo, no que diz respeito à competitividade, a nível organizativo, federativo e ainda na questão de em Portugal teres duas opções, o campeonato e o Troféu Rotax?

ABL:  Estou aqui há pouco tempo e se calhar não ‘sei a história toda’, mas somos um país pequenino, onde a meu ver não faz sentido haver duas competições em simultâneo. Temos poucos pilotos e não acho bem que hajam duas competições que os dispersam ainda mais. Não sei quem é melhor, se a Rotax se o CPK, mas acho que num país da nossa dimensão não se justifica ter duas competições. Fazia para mim mais sentido que houvesse apenas uma competição onde estivessem todos os pilotos. Acho que aí teríamos uma competição com muito mais pilotos e outra espetacularidade. O nível competitivo em Portugal, não sendo dos melhores a nível europeu, também não acho que seja mau. Temos um campeonato competitivo, com alguns pilotos que se destacam, ou porque correm também a nível internacional, ou porque têm mais experiência competitiva. Mas acho que o nosso campeonato é competitivo. Nas categorias a que estou mais atento, Júnior e X30, é frequente ter nove ou dez pilotos no mesmo segundo nas sessões de treinos cronometrados. Isso revela alguma competitividade em Portugal.

Manuel Leão (Cabo do Mundo Kart Team)

KG: E em termos de custos, achas que uma temporada de karting, sendo que é a modalidade embrionária de um piloto para o automobilismo, não sobrecarrega logo demasiado as famílias pelos elevados custos?

ABL: Acho que ‘a coisa peca’ não é pelos custos que os pais possam acarretar relativamente aos ‘miúdos’. Tenho algum contato principalmente com Espanha, a nível profissional. O que eu sei é que em Espanha existe um interesse diferente das empresas em apoiarem a competição, porque têm benefícios fiscais no apoio a qualquer desporto. Cá em Portugal, não há esse incentivo fiscal relativamente às empresas, o que lhes retira qualquer vontade de investir ou apoiar, seja em que modalidade for. Seja para karts ou até para atletismo. Acabam os pais e os pilotos por ser sempre sobrecarregados financeiramente. Temos pilotos que já foram vice-campeões do mundo e que se foram ‘perdendo na vida’, por não arranjarem apoios e que se calhar hoje seriam referências a nível mundial. Em Espanha, especificamente para desporto motorizado, as empresas recebem benefícios fiscais superiores ao valor que investiram. Isto vira ‘o filme todo ao contrário’, pois acabam por ser as empresas a procurar formas de investir nos desportos motorizados. É um detalhe que faz toda a diferença.

Luis Leão (Cabo do Mundo Kart Team)

Texto: ©Jorge Cabrita
Fotos: ©VVL Sport Image/José Lourenço

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